domingo, 23 de maio de 2010

A visita série Contos

O passado sussurrou-lhe ao ouvido, chamando-a mais uma vez. Ela embarcou no primeiro vôo.
- É ali, disseram uns homens, apontando para um terreno onde jaziam duas casinhas desbotadas. O portão parecia ter sido forçado e o mato havia tomado conta dos canteiros. O cenário era de abandono total.
Sem medo, ela entrou sem saber o que encontraria. Pensou em bater palmas, todavia, seus pés se apressavam pela trilha dos pneus até a garagem. Parou à porta do galpão. Pensou em chamar o nome dele, mas foi justo quando ele surgiu. Ela balbuciou algo, visivelmente desconcertada e ele sorriu. Abriu-lhe os braços e veio recebê-la. Só havia os dois ali. Os relógios pararam neste exato momento.
Tres longos anos haviam se passado e tudo ao redor dela agora estava como da última vez, em estado provisório: a pouca luminosidade, a mobília mal arranjada, as roupas reviradas, a cama improvisada. Por que cargas d'água ela quereria permanecer num lugar assim por mais de cinco minutos? Porém, não viera até ali esperando encontrar um ambiente acolhedor. O motivo da visita era ele, só ele. E surpreendeu-se de encontrá-lo, afinal, ele tinha planos de deixar o país.
Ele, mais surpreso ficou, pois supunha que ela jamais voltaria àquele lugar. Surpreender-se-ia mais ainda se soubesse o quanto ela o amava. Amava-o e haveria de amá-lo continuamente, como quem nutre silenciosamente uma criatura presa às suas entranhas. Amava-o como quem ergue uma homenagem póstuma, um totem na planície da alma - mas ele jamais o saberia. E, por isso, ele tinha uma única certeza: o passado depunha contra ela, mesmo depois de vinte anos. O que a teria feito voltar?
- Eu não voltei, disse ela. Não gosto do campo, prefiro a capital. Vim a trabalho.
O olhar dela era o mesmo de menina, agora, com requintes de deliciosa astúcia. Por um instante, ele deixou-se levar pelos meneios dos seus quadris enquanto a observava esquivar-se de um ou outro objeto pendente da oficina. Mas a brandura da sua voz, carregada de tom maternal, atava-o inexplicavelmente a ela cada vez mais. Ela sempre soube como misturar mulher e mãe na mesma fêmea.
Falavam sem parar enquanto o outono esmerava-se lá fora com temporal e ventania - e também com sol e céu cravejado de estrelas.
Enquanto se moviam no pequeno espaço que tinham, os dois expressavam-se mui vigorosamente, em palavras e gestos. De súbito, seus corpos roçaram um no outro. Ela desejou que a cena congelasse ali. Ele pensou em avançar o sinal, mas hesitou - há vinte anos não havia sido assim, quando ele a envolvera em seus braços pela primeira vez. Mas agora ele estava com aids. E ela estava feliz na capital.
O que ele jamais poderia supor é que, para ela, bastava que ele ainda existisse. Àquela altura da vida, ela não queria nada mais que a eternidade.

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