domingo, 1 de agosto de 2010

Diante de Deus e dos homens

Fracassei, admito
Sim, confesso que errei
E eu não ousaria dizer
que, por malévolo intento,
a vida, que seguiria
perfeitamente o seu caminho
sem a minha existência,
me tenha pregado uma peça
Antes, prefiro dizer que, por me faltar
lucidez, rigor ou mesmo covardia
- e, também por me sobrar tamanha ousadia
enredei-me por veredas tais
que, somente a providência
divina a livrar-me das quais
jamais por mim mesma me libertaria!

De virtudes assim nutrida
- a saber, ousadia e humildade juntas
ambas na justa medida distribuídas
é que, alternando força e fraqueza,
movo um pé de cada vez
Perguntai e vede quem é o meu pai!
Pois, Esse, que não esquece da semente de Abraão,
não permitirá que o descabido destino,
produto de momentânea torpeza,
sobrevenha com cruel avidez
capaz de ceifar-me a alma
Antes, recolherá Ele a minha confissão
e a lançará num profundo mar
A vergonha, tornar-se-á então, lembrança
E a paz será a minha maior herança

domingo, 11 de julho de 2010

O Perdão

Enxuga o fel
Pois aquilo que feria não fere mais
Aprendi que o contrário da guerra não é a paz
O contrário da guerra é o perdão
Enxuga o fel, tira o capuz
Porque hoje não evitarei teus olhos nem me desviarei da tua mão
Sequer uma palavra minha ouvirás
A língua mortífera deixei atadada à correntes que não me pertenciam
Por mim não conhecerás denúncia nem acusação
Pois quando saí do cárcere, saí mais forte
Ergui-me do pó, como quem ergue um troféu
Enxuga o fel, descansa o açoite
Não há mais lugar em mim que não sangre
Na carne ferida, no espírito fortalecida
Na alma justificada

Hoje eu me apresento assim, metade boa, metade ruim
Mas foi a mim que o destino confiou as chaves da tua prisão
Embora me olhes assim, feroz, não me impedirás de livrar-te
As muitas marcas esqueço, diante do algoz emudeço
Somente o ruído da cela a abrir-se fala por mim
Não mais a culpa, só o perdão
E teu grito sufocado no peito, esse, levarás contigo
Enxuga o fel e lamenta
Pois o que procuravas não encontraste comigo
Não sou argumento para a tua sina de preso
Pensavas que eu era transparente feito caco de vidro - afiado
e descobriste, surpreso, que eu sou feito água
Posso ser espelho e posso ser correnteza
Mas hoje escolhi não te arrastar contra as pedras
Quero lavar-te a alma, limpar-te a lepra
e despedir-te em paz
Vou seguir como o rio, sem olhar para trás

domingo, 4 de julho de 2010

Estranha Convicção

Por mais que eu queira
e meu coração reclame
tudo o que teu coração espera
e proclama
Eu sei: não leva o meu nome

domingo, 23 de maio de 2010

A visita série Contos

O passado sussurrou-lhe ao ouvido, chamando-a mais uma vez. Ela embarcou no primeiro vôo.
- É ali, disseram uns homens, apontando para um terreno onde jaziam duas casinhas desbotadas. O portão parecia ter sido forçado e o mato havia tomado conta dos canteiros. O cenário era de abandono total.
Sem medo, ela entrou sem saber o que encontraria. Pensou em bater palmas, todavia, seus pés se apressavam pela trilha dos pneus até a garagem. Parou à porta do galpão. Pensou em chamar o nome dele, mas foi justo quando ele surgiu. Ela balbuciou algo, visivelmente desconcertada e ele sorriu. Abriu-lhe os braços e veio recebê-la. Só havia os dois ali. Os relógios pararam neste exato momento.
Tres longos anos haviam se passado e tudo ao redor dela agora estava como da última vez, em estado provisório: a pouca luminosidade, a mobília mal arranjada, as roupas reviradas, a cama improvisada. Por que cargas d'água ela quereria permanecer num lugar assim por mais de cinco minutos? Porém, não viera até ali esperando encontrar um ambiente acolhedor. O motivo da visita era ele, só ele. E surpreendeu-se de encontrá-lo, afinal, ele tinha planos de deixar o país.
Ele, mais surpreso ficou, pois supunha que ela jamais voltaria àquele lugar. Surpreender-se-ia mais ainda se soubesse o quanto ela o amava. Amava-o e haveria de amá-lo continuamente, como quem nutre silenciosamente uma criatura presa às suas entranhas. Amava-o como quem ergue uma homenagem póstuma, um totem na planície da alma - mas ele jamais o saberia. E, por isso, ele tinha uma única certeza: o passado depunha contra ela, mesmo depois de vinte anos. O que a teria feito voltar?
- Eu não voltei, disse ela. Não gosto do campo, prefiro a capital. Vim a trabalho.
O olhar dela era o mesmo de menina, agora, com requintes de deliciosa astúcia. Por um instante, ele deixou-se levar pelos meneios dos seus quadris enquanto a observava esquivar-se de um ou outro objeto pendente da oficina. Mas a brandura da sua voz, carregada de tom maternal, atava-o inexplicavelmente a ela cada vez mais. Ela sempre soube como misturar mulher e mãe na mesma fêmea.
Falavam sem parar enquanto o outono esmerava-se lá fora com temporal e ventania - e também com sol e céu cravejado de estrelas.
Enquanto se moviam no pequeno espaço que tinham, os dois expressavam-se mui vigorosamente, em palavras e gestos. De súbito, seus corpos roçaram um no outro. Ela desejou que a cena congelasse ali. Ele pensou em avançar o sinal, mas hesitou - há vinte anos não havia sido assim, quando ele a envolvera em seus braços pela primeira vez. Mas agora ele estava com aids. E ela estava feliz na capital.
O que ele jamais poderia supor é que, para ela, bastava que ele ainda existisse. Àquela altura da vida, ela não queria nada mais que a eternidade.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Provérbios

Se te mostras fraco justamente no dia da angústia é porque, de fato, tua força é menor do que supunhas

Provérbio de Salomão

Reclusão

Virás comigo!, acreditei
ao divisar tua sombra
projetada no vão da porta

Virás comigo!, afirmei
com a luz por detrás
ao transpor a porta

Virás?, perguntei
ao apagar das luzes
enquanto se fechava a porta

Virás?, gritei
E só eu escutei
do outro lado apenas
o som seco do teu punho fechado
emudecer contra a porta

Ária do Amor Imaginário - Parte 2

Tuas palavras são como pássaros fugazes
Não posso encerrá-las nas grades frágeis de um papel
E ficam a voejar por sobre minha cabeça
Por elas, os poetas se apressam a compor suas trovas
Mas tuas palavras nascem nos campos de um reino distante
Eu recolho uma por uma e amanhã o vale todo já se floriu

domingo, 16 de maio de 2010

Ária do Amor Imaginário, Parte 1

Imagino teu olhar repleto de palavras doces
Então, porque sabes de mim, peço que profetizes
Quisera encontrar teus olhos um dia desses
e banhar-me na fonte de tudo aquilo que dizes
De ti só tenho as palavras
De mim obténs segredos
Mas tuas palavras constroem meu castelo
E por elas se enchem de flores as pastagens e os vinhedos
Tuas palavras são doces vozes
que me acalentam na escuridão da lua nova
Por tuas palavras cai uma estrela do céu
E por elas fecho meus olhos com um pedido infantil
Quisera ouvir-te mais vezes no silêncio daquilo que escreves