Enxuga o fel
Pois aquilo que feria não fere mais
Aprendi que o contrário da guerra não é a paz
O contrário da guerra é o perdão
Enxuga o fel, tira o capuz
Porque hoje não evitarei teus olhos nem me desviarei da tua mão
Sequer uma palavra minha ouvirás
A língua mortífera deixei atadada à correntes que não me pertenciam
Por mim não conhecerás denúncia nem acusação
Pois quando saí do cárcere, saí mais forte
Ergui-me do pó, como quem ergue um troféu
Enxuga o fel, descansa o açoite
Não há mais lugar em mim que não sangre
Na carne ferida, no espírito fortalecida
Na alma justificada
Hoje eu me apresento assim, metade boa, metade ruim
Mas foi a mim que o destino confiou as chaves da tua prisão
Embora me olhes assim, feroz, não me impedirás de livrar-te
As muitas marcas esqueço, diante do algoz emudeço
Somente o ruído da cela a abrir-se fala por mim
Não mais a culpa, só o perdão
E teu grito sufocado no peito, esse, levarás contigo
Enxuga o fel e lamenta
Pois o que procuravas não encontraste comigo
Não sou argumento para a tua sina de preso
Pensavas que eu era transparente feito caco de vidro - afiado
e descobriste, surpreso, que eu sou feito água
Posso ser espelho e posso ser correnteza
Mas hoje escolhi não te arrastar contra as pedras
Quero lavar-te a alma, limpar-te a lepra
e despedir-te em paz
Vou seguir como o rio, sem olhar para trás
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domingo, 11 de julho de 2010
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