terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Por um fio

Acaso não te deste conta ainda
de que prezo a impossibilidade?
Prezo-a diuturnamente, pois
Por isso tenho esses passos errantes
Então, não me instes para que eu não fuja
Porque enquanto houver céu,
terra e a vastidão das florestas
tudo isso será território meu
E, bem comigo, meu amigo:
isso não é fugir
Nem lindes, nem grades
E, em havendo limites,
é onde minha alma transgride

Só o vento a rugir, só o vento
E eu nas pradarias, a correr
A correr...E o coração
O coração trago suspenso,
envolto desse horizonte
onde tudo fica indefinidamente longe

E é justamente esse hiato,
o hiato existente entre o querer e o realizar
próprios das faculdades humanas
(e que em ti se torna pessoa)
que me motiva a querer-te mais
Por isso é que sempre volto
ao mesmo lugar, sequiosa
Então, que me vejas e não me vejas
Que me suponhas entre o salto
e um fio de lua
Dois olhos de leoa, eu
Tua.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Da chama aos estertores: a senda do peregrino equivocado


Debruçar-te-ás sobre as tumbas
dos gigantes iluminados
cujos antepassados num ímpeto
de vanglória
fundaram a portentosa Babel

Indagar-te-ás por entre as sombras
e responder-te-ão os desencarnados
cujos espíritos, banidos do firmamento,
retorcem-se à penúria
por terem, na origem, subvertido seu papel

Então, alimentar-te-ás do néctar das obras
e do pão malignos, bem paramentados
cuja morte certa será o teu merecimento
ainda que te conforte a luxúria
Trazem para ti os que sobem do abismo com teu mel

Assim que não verás que tombas
E do teu sangue já embriagados
põem-se a rir do teu tormento
e a apagar da Terra a tua memória
Os que te desviaram do eterno Céu

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ausente

Como se morto estivera

ou como quem ainda não nascera;

como se da voz lhe tivessem

extraído todo o som;

os ouvidos, são duas portas cerradas

por onde nem voz, nem sim, nem não

encontram passagem;

e seus olhos como se não vissem

outra coisa além da escuridão,

assim é aquele a quem me dirijo

É este para quem verso:

o que habita a espessa bruma

do longínquo Quando

Por isso não sei se ausente

ou se já a alma não lhe é presente,

pois o corpo jaz inerte

na finitude do Agora

De verso – inverso,

pois desconhece destinatário

e para mim retorna –

faço este caminho

Enquanto minha oração ecoa

no Céu e revolve o Seol

Assim cheguei ao limiar do Abismo

e até que seja Dia perfeito

espero Aquele que tem nas mãos

as chaves da Morte e do Inferno

Este, que das portas, apenas sussurra

e das sombras surge um nome

É O que me apresentará a ti

quando meus versos

não baterem mais contra as paredes

da dura Espera



terça-feira, 5 de junho de 2012

Dever de Casa

Aos casados, eu recomendo o exercício do verbo SER:
Ser| Estar | Permanecer | Ficar;
Aos solitários, recomendo que flexionem o verbo PROCURAR,
juntamente com ESPERAR e ENCONTRAR, na mesma oração;
E, para todos os que encontraram,
recomendo o exercício do verbo AMAR em todos os tempos!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dádiva

Vem da minha infância
Essa mania de fazer de conta
Vêm de lá minha alegria, meu riso
E também meu choro
Tudo isso cresceu comigo
E até minha tristeza,
que hoje tem outro nome,
eu trouxe comigo de lá
Vem da minha juventude
Essa mania de me apaixonar
E de acreditar
Vêm de lá todos os meus sonhos,
meus desencontros
e também todo o encanto
O riso largo depois da dor do parto
Tudo isso eu trouxe comigo
desse lugar que só eu conheci
Eu trouxe só para repartir
Tudo o que vem de lá
E dinheiro nenhum compra

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Varão

Suposta Mente quem te desenhou
quem contornou tua alma
depois de preencher teu espírito
te recobriu desse tecido epitelial
que te faz único entre os demais
e que, demasiadamente, me atrai

Assim, que diante do encontro acidental
que nos projeta à mútua semelhança
ao mesmo tempo em que revela-te a fratura
expoe-me em carne e osso
Transmutando-nos diante da surpresa
Daí o me chamares varoa

Sublime correspondência essa
Como se parte de ti eu fora
De ti, outrora tomada e para ti destinada
Pelo que temo que não passes
tanto mais que o sentido figurado
de tudo aquilo quanto anelo

E, ainda que eu pondere a respeito,
É chegada a hora em que nos reconheceremos de fato
Quando haverá de se calar cada centímetro teu, que grita
ao me ouvir anunciar, assim, calada
que és bem-vindo em todo tempo
Porque és, inexoravelmente, a parte que me falta

domingo, 14 de agosto de 2011

O Homem por Detrás da Vidraça

Que me encerrem no vazio do esquecimento
Mas não me encerrem a conta bancária
De pessoas doentes e fracas,
de pobres moribundos,
de lutadores fracassados,
o mundo está lotado.
Por precaução, mantenho-me aqui, isolado
Por mim pouco importa
se vivem ou se morrem
Contanto que se mantenham afastados
enquanto assim o fazem
É pelo que prezo todos os dias
Para que não me roubem o tempo valioso
que gastaria a curvar-me e ouvir-lhes o lamento
Para que não me roubem os cofres
caso cativem-me a alma com seus votos fiéis
Porque isso seria como partir-me um pedaço
ou arrancar-me um braço
Sofrer com o outro é apenas drenar o coração
sem previsão de novo preenchimento
Cortem-me os dedos, mas sem demora, deixem-me os anéis