segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dádiva

Vem da minha infância
Essa mania de fazer de conta
Vêm de lá minha alegria, meu riso
E também meu choro
Tudo isso cresceu comigo
E até minha tristeza,
que hoje tem outro nome,
eu trouxe comigo de lá
Vem da minha juventude
Essa mania de me apaixonar
E de acreditar
Vêm de lá todos os meus sonhos,
meus desencontros
e também todo o encanto
O riso largo depois da dor do parto
Tudo isso eu trouxe comigo
desse lugar que só eu conheci
Eu trouxe só para repartir
Tudo o que vem de lá
E dinheiro nenhum compra

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Varão

Suposta Mente quem te desenhou
quem contornou tua alma
depois de preencher teu espírito
te recobriu desse tecido epitelial
que te faz único entre os demais
e que, demasiadamente, me atrai

Assim, que diante do encontro acidental
que nos projeta à mútua semelhança
ao mesmo tempo em que revela-te a fratura
expoe-me em carne e osso
Transmutando-nos diante da surpresa
Daí o me chamares varoa

Sublime correspondência essa
Como se parte de ti eu fora
De ti, outrora tomada e para ti destinada
Pelo que temo que não passes
tanto mais que o sentido figurado
de tudo aquilo quanto anelo

E, ainda que eu pondere a respeito,
É chegada a hora em que nos reconheceremos de fato
Quando haverá de se calar cada centímetro teu, que grita
ao me ouvir anunciar, assim, calada
que és bem-vindo em todo tempo
Porque és, inexoravelmente, a parte que me falta

domingo, 14 de agosto de 2011

O Homem por Detrás da Vidraça

Que me encerrem no vazio do esquecimento
Mas não me encerrem a conta bancária
De pessoas doentes e fracas,
de pobres moribundos,
de lutadores fracassados,
o mundo está lotado.
Por precaução, mantenho-me aqui, isolado
Por mim pouco importa
se vivem ou se morrem
Contanto que se mantenham afastados
enquanto assim o fazem
É pelo que prezo todos os dias
Para que não me roubem o tempo valioso
que gastaria a curvar-me e ouvir-lhes o lamento
Para que não me roubem os cofres
caso cativem-me a alma com seus votos fiéis
Porque isso seria como partir-me um pedaço
ou arrancar-me um braço
Sofrer com o outro é apenas drenar o coração
sem previsão de novo preenchimento
Cortem-me os dedos, mas sem demora, deixem-me os anéis

Homem e Mulher

Somos, tu e eu
sujeito e objeto do mesmo amor
conjugados na mesma pessoa
Eis porque nos esmeramos
no exercício do verbo ser
e no argumento em riste
Nenhum de nós pretende desaparecer
No entanto, nem um nem outro
tem a exata medida do que somos
um no outro eclipsados

Ferocidade

Lua inteira no céu de abril
a noite era da loba
Bem que o desejo lhe saía
na voz e nos olhos
Àquela altura até exalava
um perfume tinto
com notas de negro absoluto
Sim, a noite era toda dela
Veio implacável, apenas sussurrou
e já era seu o território
Conquistado, ele acedeu
Seus dentes, qual marfim esculpido
se alinharam num riso completo
Os corpos então se imantaram
e saciaram a uma seu furor
Foi-se a Lua, veio Vênus
e ninguém lembrou do Amor.

domingo, 1 de agosto de 2010

Diante de Deus e dos homens

Fracassei, admito
Sim, confesso que errei
E eu não ousaria dizer
que, por malévolo intento,
a vida, que seguiria
perfeitamente o seu caminho
sem a minha existência,
me tenha pregado uma peça
Antes, prefiro dizer que, por me faltar
lucidez, rigor ou mesmo covardia
- e, também por me sobrar tamanha ousadia
enredei-me por veredas tais
que, somente a providência
divina a livrar-me das quais
jamais por mim mesma me libertaria!

De virtudes assim nutrida
- a saber, ousadia e humildade juntas
ambas na justa medida distribuídas
é que, alternando força e fraqueza,
movo um pé de cada vez
Perguntai e vede quem é o meu pai!
Pois, Esse, que não esquece da semente de Abraão,
não permitirá que o descabido destino,
produto de momentânea torpeza,
sobrevenha com cruel avidez
capaz de ceifar-me a alma
Antes, recolherá Ele a minha confissão
e a lançará num profundo mar
A vergonha, tornar-se-á então, lembrança
E a paz será a minha maior herança

domingo, 11 de julho de 2010

O Perdão

Enxuga o fel
Pois aquilo que feria não fere mais
Aprendi que o contrário da guerra não é a paz
O contrário da guerra é o perdão
Enxuga o fel, tira o capuz
Porque hoje não evitarei teus olhos nem me desviarei da tua mão
Sequer uma palavra minha ouvirás
A língua mortífera deixei atadada à correntes que não me pertenciam
Por mim não conhecerás denúncia nem acusação
Pois quando saí do cárcere, saí mais forte
Ergui-me do pó, como quem ergue um troféu
Enxuga o fel, descansa o açoite
Não há mais lugar em mim que não sangre
Na carne ferida, no espírito fortalecida
Na alma justificada

Hoje eu me apresento assim, metade boa, metade ruim
Mas foi a mim que o destino confiou as chaves da tua prisão
Embora me olhes assim, feroz, não me impedirás de livrar-te
As muitas marcas esqueço, diante do algoz emudeço
Somente o ruído da cela a abrir-se fala por mim
Não mais a culpa, só o perdão
E teu grito sufocado no peito, esse, levarás contigo
Enxuga o fel e lamenta
Pois o que procuravas não encontraste comigo
Não sou argumento para a tua sina de preso
Pensavas que eu era transparente feito caco de vidro - afiado
e descobriste, surpreso, que eu sou feito água
Posso ser espelho e posso ser correnteza
Mas hoje escolhi não te arrastar contra as pedras
Quero lavar-te a alma, limpar-te a lepra
e despedir-te em paz
Vou seguir como o rio, sem olhar para trás